Crítica | Kardec

2019 tem se destacado como o ano de “filmes religiosos”. Gênero esse que possui um público específico, cativo, embora popular. Muitos torcem o nariz para tal gênero, pois seria apenas mais uma caça-níquel, um instrumento de reafirmação da religião do qual determinado filme aborda, ou até mesmo um instrumento de alienação para os céticos. Por um lado, faz sentido – mas por outro, se trabalhado de forma honesta e coesa, pode ser um bom instrumento de elucidação de determinada religião ou doutrina.

Kardec (2019), de Wagner de Assis (Nosso Lar, de 2010), consegue se encaixar nesse parâmetro. Em termos de mídia, pouco se abrange sobre a doutrina espírita, que além do espiritismo, se baseia em muitos elementos do cristianismo. Contudo, o longa não é sobre a doutrina espírita especificamente, embora seja um de seus pilares. Kardec é essencialmente sobre o personagem-título, o professor Hippolyte Léon Denizard Rivail (Leonardo Medeiros), um influente educador, autor e tradutor francês. Cético, respeitado escritor integrante da Academia Francesa, não se permitiu dobrar-se pelos desmandos da Igreja Católica na época – que mesmo após muitas décadas da queda da Aristocracia monárquica, ainda detinha um imenso poder de influência na sociedade, principalmente no sistema educacional.

Não aceitando tal interferência externa em suas aulas, se aposentou e foi dar aulas particulares, ao mesmo tempo em que é convidado a participar de reuniões para investigar fenômenos e contatos sobrenaturais que passaram a ocorrer – as conhecidas “mesas girantes”. Ao passo em que Léon investiga os fenômenos, as ocorrências sobrenaturais o confrontam, despertando cada vez mais perguntas das quais precisavam prontamente de respostas.

Baseado no livro Kardec: a Biografia, do jornalista Marcelo Souto Maior, Kardec destoa de boa parte das produções nacionais mais recentes, devido a sua meticulosa qualidade técnica. Ambientado na França do século XIX, o longa possui fidelidade de época notável, com seu figurino, fotografia e direção de arte. Os efeitos especiais, simples e eficientes, dão o tom a mais na trama, sem ser nada espetaculoso e não interferindo nas atuações do elenco, transparecendo autenticidade à obra.

Não deixa de ser um contentamento ver produções nacionais como Kardec irem às salas, pois se desfaz algumas máximas ainda teimosamente enaltecidas, entre essas, de que não é possível haver uma produção cinematográfica de qualidade, com fidelidade de época, em território nacional. O longa é, antes de mais nada, uma cinebiografia, e não uma ode ao kardecismo ou um filme religioso. Wagner de Assis deixa bem claro isso, mostrando todas as angústias e consequências de Prof. Léon arcou ao tentar provar naquilo em que acredita. Antes de se tornar o guru ou a referência da doutrina kardecista, antes de se tornar Allan Kardec, Léon Rivail não poderia ser apenas mais um indivíduo cético – precisou ser um homem de fé.

Nota da crítica: 4 Peixeiras de Luz (É porreta)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *