Oscar 2019 | Entre seguir avançando e permanecer no mais do mesmo

O Coroa é Pop

Neste ultimo domingo (24), a Academia de Cinema de Hollywood escolheu os melhores do ultimo ano. A 91ª edição do Oscar veio cercada de polêmicas, o que não é nenhuma novidade, desde seu planejamento meses atrás, até a cerimônia em si. Começando pela ideia da criação da categoria de “Melhor Filme Popular” (a famosa Escolha da Audiência), que foi revogada após reação negativa, além da não-exibição de categorias essenciais, como a de Melhor Fotografia. Acrescente a isso, como a escolha de Green Book para Melhor Filme que causou controvérsias, em meio a polêmicas envolvendo os personagens representados e o diretor.

A Academia vem tentando nos últimos anos recuperar o público que vem perdendo – a começar pela iniciativa de não ter apresentador/anfitrião oficial, coisa que não ocorria há trinta anos. E deu certo – a cerimônia ficou mais ágil, menos longa e até menos maçante. Não é preciso suprimir categoria essenciais, como a de Fotografia, para deixar a cerimônia mais curta e dinâmica. Espera-se que esse formato sem anfitrião se mantenha, e não engessem os convidados apresentadores das categorias.

Em meio a todas essas tentativas, uma coisa é unânime: os filmes indicados são os melhores nesses últimos cinco anos. Desde o início da corrida das premiações, em outubro, até meados de janeiro, quando os últimos indicados saem em cartaz nos EUA, muita produção boa saiu – e também ficou de fora. Mas entre os candidatos, um não causou tanto alvoroço como Roma (Roma, 2018), do mexicano Alfonso Cuáron. Não por causa do filme em si, que é uma obra-prima, mas por quem a produziu e distribuiu – a Netflix, a maior plataforma de streaming do mundo. Roma já havia causado um furdunço em Cannes, justo porque não foi um “filme feito para cinema.” Muito pelo contrário – é um filme feito para o cinema e com homenagem ao Cinema. A diferença é que foi produzido por uma plataforma de streaming, e não um grande estúdio. A ambição da Netflix é alta – provou que tem todas as condições de enfrentar de igual para igual com os gigantes cinematográficos. Não precisa fazer muito: basta exibir seus filmes nas salas, antes de chegar ao seu catálogo, mesmo que o intervalo seja ainda muito curto.

O debate vai longe. E Roma é tão bom que não havia como ficar de fora das indicações – é tanto que recebeu logo dez, ao lado de outro destaque, A Favorita(The Favourite, 2018) filme de qualidade técnica impecável, e que teve na ótima interação de seu trio de atrizes seu maior trunfo. Mas a questão Roma/Netflix foi ficando de lado, à medida em que a cerimônia foi se aproximando. Além disso, as sete indicações à Pantera Negra, todas as polêmicas envolvendo Green Book – o Guia (Green Book, 2018), e a participação de mais um filme de Spike Lee, historicamente esnobado pela Academia, com o excelente Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, 2018) as indicações de Lady Gaga como Melhor Atriz e Melhor Canção por Nasce Uma Estrela (A Star is Born, 2018) e as nomeações conquistadas – e contestadas – por Bohemian Rhapsody (Bohemian Rhapsody, 2018) foram motes mais que suficientes para atrair a atenção do público e criar todo um hype em cima da cerimônia, que não ocorria há anos.

Com tanto filme interessante no páreo, ficou difícil cravar quem venceria melhor Filme – as exceções foram em algumas categorias, como Melhor Canção, Melhor Diretor e Melhor Filme estrangeiro, que ficaram com Nasce… e Roma, respectivamente. E olhe que a categoria de Melhor Filme de Língua Estrangeira deste ano estava com uma qualidade altíssima, com ótimas produções, como Guerra Fria (Cold War, Polônia, 2018), Assunto de Família (Shoplifters, Japão, 2018, vencedor do Festival de Cannes) e Cafarnaum (Capernaum , Líbano, 2018). Nas outras categorias, tudo em aberto, incluso em categorias que onde se considerava uma certa barbada, como a de Melhor Ator.

A cerimônia transcorreu como manda o figurino, com a confirmação de muitas apostas e as surpresas que surgiram. Apesar de ser uma obra que dividiu muitas opiniões, Bohemian Rhapsody acabou sendo o maior vencedor da noite, conquistando quatro das cinco estatuetas que fora indicado. A surpresa negativa – e ao mesmo tempo, positiva – foi A Favorita, que ganhou apenas uma estatueta das dez indicações e foi na menos esperada, a de Melhor Atriz para Olivia Colman. Roma ganhou onde estava cotadíssimo para ganhar: além de Melhor Filme Estrangeiro e Diretor, levou o de Melhor Fotografia. Pantera Negra foi uma das sensações da noite, conquistando três estatuetas e marcando a história da Marvel Studios, e Spike Lee, que finalmente ganhou um Oscar por Infiltrado na Klan em Melhor Roteiro Adaptado, após trinta anos por ter sido complemente ignorado com Faça a Coisa Certa. Mas nenhum resultado causou tanta controvérsia quanto Green Book.

Filme inspirado na história de Don Shirley, artista negro que faz turnê no sul segregacionista racial dos EUA, possui todos os elementos da cartilha padrão para se vencer em Melhor Filme. Seguindo a premissa que os diferentes podem se conviver pacificamente e com um final previsível, era escolha e aposta segura, que poderia não acarretar numa provável insatisfação e repercussão negativa. Mas, foi tudo em vão. Green Book foi bombardeado nas semanas anteriores com declarações dos familiares de Don Shirley contestando o enredo e com as publicações dos relatos de assédio cometido pelo diretor Peter Farrely. Não é visto nos EUA como uma obra de afirmação do protagonismo negro, como Pantera Negra, ou uma obra que denuncia e escancara sem meia-verdades toda a cultura racista institucionalizada americana, como Infiltrado na Klan.

A Academia vem fazendo todo um esforço em contemplar e premiar mais obras que não seguem apenas a cartilha padrão de “filmes para Oscar”, com uma representatividade maior de não-americanos e negros, mas peca em parar apenas na “página 2” escolhendo Green Book. O resultado do Oscar de Melhor Filme é uma clara prova que os votantes da Academia ainda tem muito a se desconstruir, portanto, falta muito a avançar. Por enquanto, ainda seguem no mais do mesmo.

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