Crítica | Conquistar, Amar e Viver Intensamente

Jacques (Pierre Deladonchamps) é um escritor de meia idade que não escreve e vive às custas de seus pais em Paris. Durante uma viagem a Rennes, ele repentinamente encontra o estudante que não estuda, Arthur (Vincent Lacoste).  As duas diferentes visões de mundo e realidades da vida não impedem que os dois tenham uma história de amor digna de cinema. Com direito a encontros, encantos e um fator significativo que impede um relacionamento a longo prazo. O fato de Jacques ser portador de HIV. O longa é ambientado durante a década de 90, na qual o diagnóstico da doença ainda era sinônimo de uma sentença de morte, mesmo com o início dos coquetéis de remédios.

O primeiro encontro e início do relacionamento dos dois aconteceu muito rápido, intenso, retratando a ideia de que nenhum dos dois nem queria e nem tinha muito tempo a perder. Jacques e Arthur parecem estar a todo momento num jogo de sedução, eles se provocam, seduzem, flertam furtivamente com direito a muitas referências intelectuais, se entregam, recuam e começam tudo novo. Ao mesmo tempo, tudo é muito leve, sensível e sutil, diga-se até abstrato. Muita coisa não é explícita, mas deixa-se por entender. Essa sutileza e rapidez nos acontecimentos acaba fazendo com que o espectador não se prenda tanto aos personagens, não causa tanta empatia.

A história de amor pode até ser centrada em Arthur e Jacques, mas a maior sintonia pode ser observada entre Jacques e seu amigo/vizinho inseparável, Mathieu (Denis Podalydès). São eles que protagonizam as cenas com maior carga dramática que o espectador vai sentir durante o longa. No entanto, os momentos envolvendo o trio (Mathieu, Jacques e Arthur) dão o toque de humor ao filme e acentuam o clima de leveza.

Um detalhe que chama atenção no drama de Christophe Honoré é o uso contínuo da cor azul. Ao longo de todo o filme, a cor se faz presente em diversas situações, em vários tons. Outro aspecto a ser levado em conta, é como os acontecimentos e diálogos da trama giram em torno da condição de Jacques. A temática do HIV nos filmes ditos LGBT é uma “faca de dois gumes”. Ao passo que cumpre um papel informativo e honra a memória de todos os que morreram lutando contra a AIDS, também reforça a conexão e o estigma entre homossexualidade e HIV. Algo que inflama ainda mais os preconceitos já enraizados na sociedade em vez de desmistificá-los. A ausência do outro lado no cinema (casais héteros que convivem com o HIV), acaba por endossar esse estereótipo. Embora a narrativa aborde demasiadamente o tema, Honoré consegue retratar toda a gravidade sem ser forçado ou dramático demais. Enquadramentos, diálogos e cenários se mantém respeitosos e as sequências se mantém com o mesmo clima de todo o filme, leve sensível e muito sutil, quase abstrato.

Nota da crítica: 03 peixeiras de luz (É Massa!)

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